Minha ficha ainda não caiu.
As evidências como um apartamento calmo, arrumado, silencioso parecem não ser o bastante pra fazer com que a ficha caia. Pra me fazer entender que ela se foi, que ela partiu.
Ontem foi um dos piores dias da minha vida. A sensação de não poder fazer nada é horrível.
Fiz tudo o que estava ao meu alcance. Me estressei por causa da bagunça e sujeira, óbvio. Sou humana, tinha chegado ao meu limite. Mas nunca, em momento algum, deixei de cuidar dela por comodismo.
Meu bebê se foi ontem.
Partiu em meus braços, olhando pra mim, como que chorando.
Percebi primeiro que o veterinário que aquele coraçãozinho que eu amava ouvir quando deitávamos na minha cama havia parado de bater.
Me agarrei a esperança de que ela estivesse ainda viva quando vi uma das patinhas se mover. Mas a razão logo me lembrou do que aquilo realmente era: espasmo.
As imagens dela falecendo são o que estão me derrubando. Vem tudo como se fosse num filme, numa sequência:
Eu tentando impedí-la de tomar água. Eu percebendo que ela tava com dor e medicando da forma que fui orientada pelo veterinário. Eu chamando-a pelo nome e ela sem responder, estirada ao lado do fogão. Eu ligando para o meu pai. Ela urrando de dor. Ela espumando, mexendo as patas. Eu colocando a primeira roupa que vi na frente sem tirar os olhos dela, com o coração pesado. Eu enrolando-a no primeiro pano que vi. Aconchegando-a próximo ao meu peito. Atravessando uma avenida em horário de pico e quase sendo atropelada. Entrando correndo e avistando o veterinário, dizendo as palavras: "Doutor, olha como ela tá. Faz alguma coisa". Os dois correndo para a sala de atendimento. Eu colocando-a sobre a maca. Fazendo carinho na parte da cabeça que ela mais gostava. Ela sem responder. O veterinário aplicando várias injeções, pediu pra eu medir a temperatura. Minhas mãos tremendo quando vi que era 34,7º. O médico colando o soro na pata. Ela volta a espumar, cuspir sangue. Ela olha pra mim, me encara. A impressão que tive era que ela estava chorando, ou me pedindo ajuda. Ela começa a vomitar pedaços de sangue na minha mão. Eu limpo todos no pano que havia levado. Enquanto o veterinário vira-se para guardar o termometro, eu olho e vejo que o peito já não arfava. Ele percebe. Começa a fazer massagem. E eu descontrolada começo a surtar. A gritar. A implorar para que aquilo não tivesse acontecendo. Eu segurava a patinha dela (macia, linda). E pedia à ela que não fizesse aquilo comigo. Que ela fosse guerreira como sempre foi. Olho para o médico, ele em lágrimas me diz que o coração havia parado de bater... Retira o acesso do soro e eu a abraço. O último abraço que dei na melhor cadelinha do mundo. Fico ao lado dela por meia hora. Ela teve espasmos o tempo todo. E a cada um deles, eu pensava que ela tinha voltado. Descobria-a e via que o peito não arfava. Voltava a cobrí-la. Ligo para o meu pai em prantos. O veterinário entra na sala e pergunta se eu tenho algum lugar para levá-la. Digo que não. Ele me explica o que pode fazer. Eu dou o último beijo na minha bebê. Pago o serviço de encaminhamento/enterro e saio da sala. Saio do pior lugar do mundo. Deixo ali metade do meu coração. O meu amor.
E por mais irônico que seja. A primeira roupa que vi pela frente (a que vesti) era uma camiseta e uma calça, ambas na cor preta. Já estava em luto e não sabia.
Volto pra casa. Passo pelo corredor. Avisto a cama, o pote de ração, os brinquedos, o lugar onde fazia xixi e choro. Grito. Por que nos meus braços? Por que comigo? Por que justo eu tinha que ter visto ela sofrer daquele jeito?
Infelizmente, perguntas que ficarão sem resposta.
Dezembro 10, 2011
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1 comentários:
='( Tecaa sz'
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